Jornal Dobrabil

Glauco Mattoso. Jornal Dobrabil
São Paulo: Iluminuras, 2001.

Glauco Mattoso

Em 1977, quando morava no Rio, dei início à publicação dum boletim satírico cuja repercussão superou minhas expectativas mais ambiciosas. Trata‑se do JORNAL DOBRABIL, título que trocadilha com o JB e com a dobrabilidade duma única folha de papel tamanho ofício, em que se resumia o volante. Era o auge da chamada literatura marginal, dos poetas do mimeógrafo & da imprensa alternativa. Como eu vivia só e sem amigos, não dispunha sequer do esquema de mutirão das patotas tipo Nuvem Cigana, Pindaíba ou Sanguinovo. Contava apenas com a máquina de escrever (manual, of course) e o xerox da copiadora mais próxima. O resto ficava a cargo da criatividade. E foi justamente pra ironizar essa criatividade tão desprovida de infra‑estrutura que me propus a satirizar todas as estruturas, incluindo o próprio ato de criação artística. Juntei os ingredientes pertinentes ‑ o tosco simulacro de grande imprensa; a paródia de chavões literários; o contraste insólito entre conceitos eruditos/ vanguardistas e efeitos escatológicos do mais chulo nível; a apologia do plágio & do apócrifo, bem como a negação de toda autoridade intelectual através da subversão da própria autoria ‑ e apresentei essa mixórdia sob a forma de datilografia artesanal onde as letras garrafais eram construídas por uma “computação gráfica” puramente “olhométrica” & rudimentar. Cada folha, xerocada frente e verso, era enviada como carta a destinatários escolhidos a dedo entre as cabeças pensantes formadoras de opinião dentro da intelligentsia & da mídia (Millôr, Caetano, Houaiss, Augusto de Campos, Pignatari), e foi graças a tal estratégia que uma tiragem ridícula de 100 ou 200 cópias ganhou dimensão de “circulação” e “influência”, a ponto semear procedimentos posteriormente aproveitados por outros órgãos de humor, como a MATRACA e o PLANETA DIÁRIO, que adotaram “manchetes” calemburistas ao estilo Dobrabil (uma de minhas primeiras foi “Falcão vira arara” numa época em que o ministro da justiça não deixava passar nem o Feliz ano novo do Rubem, quanto mais o Feliz ano velho do Rubens). Outro recurso largamente difundido foi a seção de cartas à redação onde se misturavam opiniões autênticas com forjadas, todas debochadamente respondidas, de modo a fazer com que o leitor perdesse quaisquer referenciais de veracidade. Após quatro anos de periodicidade irregularíssima, reproduzi em 81 os 53 “números” do Dobrabil num álbum luxuosamente impresso, lancei dois fascículos da REVISTA DEDO MINGO, sua sucessora de breve vida, e parti pra outras iniciativas na área da poesia, do humor e do ensaio. Ficou, porém, a imagem do Dobrabil ligada a uma atitude irreverente & iconoclasta, que não poupava a própria imprensa marginal e nem mesmo a “originalidade” que me atribuíam, a despeito de antecedentes próximos ou remotos, como o PASQUIM e a REVISTA DE ANTROPOFAGIA.

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À guisa de amostra, seguem alguns momentos daquela (auto) gozação:

A obra é um roubo. O leitor é um bobo. O autor é um ladrão. A autoria é uma usurpação. A criação é uma fraude. Criatividade é repertório. Imaginação é memória. Idéia não é propriedade. (número 2, 1977)

UM JORNAL SEM NOVIDADES. JD não é o primeiro a dar as últimas, nem o último a dar as primeiras. JD só dá matéria de segunda mão, embora com segundas intenções. O único furo do JD é de tanto bater. Que o digam o seu vizinho direito do datilógrafo, o “o” minúsculo e o caralho. JD: SEMPRE NA MESMA TECLA. (número 16,1977)

JD não se responsabiliza pelos conceitos assinados. Aliás, JD não se responsabiliza nem pelas assinaturas… JD: O JORNAL QUE ASSINA O LEITOR. (número 19,1977)

“O Jornal Dobrabil é mesmo uma caixinha de surpresas. O que mais me impressionou foi a total irresponsabilidade pelas matérias, assinadas ou não. Tudo parece apócrifo. Você e Pedro assinam como próprias citações alheias, dão como alheias citações próprias e, quando indicam o verdadeiro autor, adulteram suas palavras, enxertando termos que jamais usou. Isso é que é dar ao diabo o que é de César e a César o que é de Deus. E viva o anarquismo!” ‑ Arthur da Távola, Rio, RJ

(Nós inda fazemos mais que isso: às vezes damos ao Diabo o que é dele e nos apropriamos de nossas próprias palavras. Arte gratuita bem entendida é isso: dar e tomar, sem olhar a quem. ‑ Glauco Mattoso)

“Entrei na de vocês e estou mandando uns pensamentos que surrupiei do Pascal. Quem sabe vocês conseguem contrabandeá‑los como produto marxista.” ‑ Luiz Carlos MacieI, Rio, RJ.

(Mas quem disse que queremos impingir Pascal por Marx? Isto, por exemplo ‑ “É muito melhor conhecer algo acerca de tudo que tudo acerca de uma coisa só: o universal é sempre melhor.” ‑ só tem graça se for assinado por Rockefeller. Marx assinaria melhor algo como “É preferível ser dono de um valentão que escravo de dois.” ‑ Pedro o Podre) (número 19,1977)

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O gênio não passa dum medíocre maior que os outros. A originalidade é apenas uma imitação melhor que as outras. E talvez nem isso: se uns autores e suas obras ganham importância, é porque o público não conhece todos os autores, e nenhum autor é conhecido por todo o público. (número 21, 1977)

Estão me comparando ao Millôr Fernandes. Isso não é injusto, porém encerra um equívoco. Claro que o Millôr é um autêntico gênio do plágio inteligente, e eu seu discípulo, mas ele se considera um humorista, e eu apenas um artista. A diferença está em nós, não no que fazemos. Pois, pra todos os efeitos, o humor só pode ser trazido a sério, e a arte é ridícula. (número 26, 1979) Todo grande clássico da literatura é um plágio, ainda que não intencional. E todo grande manifesto da vanguarda é um clássico, ainda que não intencional. Os pequenos plágios são intencionais, ainda que não. (número 28,1979)

Há títulos tão bons que não deveriam ter livro. E há plágios tão bem feitos, que o original não deveria existir. Mas já que têm e existem, o jeito é plagiar os títulos e intitular os plágios. (número 28, 1979)

Arte é tudo aquilo que não tem utilidade ou que, tendo utilidade, a questiona (questiona‑se a utilidade de alguma coisa usando a coisa para outra utilidade ou a utilidade para outra coisa). Antiarte seria tudo que, embora aparentemente inútil, tem a utilidade de mostrar que a arte não tem utilidade. A estética, portanto, não existe, pois sempre se descobrem utilidades para aquilo que é artístico, e sempre se inventam artes para aquilo que é utilitário, e assim não se podem estabelecer leis para separar o útil do agradável e o inútil do desagradável. (número 14, 1977)

A crítica é a arte de avaliar a arte. Como a arte não vale nada, a crítica é inútil. Sendo inútil, é necessariamente uma arte e igualmente importante. Dar‑lhe a devida importância consiste, pois, em não levá‑la a sério. (número 15, 1977)

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Glauco Mattoso é poeta, ensaísta,ficcionista e desenhista. Seus últimos livros publicados são: Rockabillyrcy, de 1988 (poesia); A estrada do roqueiro: raízes, ramos & rumos do rock brasileiro, de 1988 (ensaio); As solas do sádico, de 1990 (ficção); As aventuras de Glaucomix, o pedólatra, de 1989, em parceria com Marcatti (história em quadrinhos).

Mattoso, Glauco. Jornal Dobrabil. 34 Letras, Rio de Janeiro, Editora 34, nº 5/6, setembro de 1989.

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